Vivemos tempos de turbulência explícita. A crise nacional mostra sua cara nos presídios, nas favelas e periferias, nos bolsões de corrupção, nas lutas do campo, na incoerência da polícia e, pasmem, nas atitudes tresloucadas dos filhos de classe média. Assassinatos, pancadaria, gangues, um festival de banalidades e selvageria varre o Brasil do Oiapoque ao Chuí, devidamente caracterizado pelas peculiaridades de cada região. O que não há é exceção. Lamentavelmente a violência se exibe diariamente no horário nobre em todas as formatações.
A parcela esclarecida da sociedade ensaia agora um “mea culpa ‘quae sera tamen’ ” e começa a se preocupar, porque as instituições têm que tomar medidas punitivas contra seus herdeiros. Se for um pouco tarde para essa geração que criamos – sem limites, com uma enorme dificuldade para assumir qualquer coisa, inclusive os próprios erros – certamente resta a esperança de que é possível refletir e recomeçar com as crianças que ainda não conseguimos transformar em seres egoístas, às vezes cruéis, tiranetes, sem o menor talento para lidar com obstáculos, frustrações,vúpula, negativas.
Dizer que a culpa é do governo ampliado ( Executivo, Legislativo, Judiciário) ou apenas dos pais seria muito simplismo. É preciso ir além. E aí entra a Escola, uma instituição que vem privilegiando conteúdos e ignorando valores. Como educadores, temos a obrigação intelectual e moral de promover debates internos, propor trabalhos, dialogar com as crianças e adolescentes, impor-lhes limites, criar escolas de pais. E mais: provocar discussões sobre a família, a educação, a globalização e suas conseqüências, a crise de identidade dessa geração, o papel da mídia e da tecnologia como parceiros compulsórios no processo pedagógico. E é o que pretendemos fazer como instituição.
Afinal, sabemos que o retrato deste pesadelo nada mais é que o sintoma de erros terríveis que devem ser localizados e combatidos em sua raiz. Somente o envolvimento de todos os responsáveis – governo, família, educadores – podem apontar saídas. E inevitavelmente elas deverão passar por uma reflexão sobre respeito, ética, solidariedade e humanização.
Profª. Maria Dulce Machado de Aguiar
Diretora do Colégio Pardal